Por que tantos vilões têm cicatrizes ou deficiências físicas?

Entre os inúmeros pilares das boas histórias está a vilania. O antagonismo aos heróis é tão fundamental quanto suas próprias existências e, esteticamente, esse antagonismo pode ser representado de diversas formas. Existe o figurino de vilão, existe a voz de vilão e existe a aparência física de vilão.

O cínico Scar

Nesse último caso o processo criativo tende a seguir uma receita de bolo: cicatrizes e incapacidades físicas, dentro de um determinado contexto, serão sinônimo de um personagem maldoso ou com algum desvio moral que o torne uma força a ser combatida. Mas por que isso acontece? Não existe uma única resposta a essa pergunta, mas sim três. Comecemos pela mais simples.

1 – A maldade exterior

Por mais que o objetivo de algumas histórias seja o de estudar a similaridade entre um herói e seu nêmesis (como acontece em diversos arcos do Batman, por exemplo), é preciso que existam diferenças apontáveis entre os dois. Um atalho para isso é, quase invariavelmente, a aparência do vilão. Que forma melhor de demonstrar que determinado personagem é mau do que dar a ele uma cicatriz por cima do olho, aliada a uma roupa preta e uma expressão inquietante? Por mais que você veja apenas uma imagem, já sabe que esse cara não pode ser o mocinho, certo?

Le Chiffre – Casino Royale (2006)

Esse tipo de recurso torna o envolvimento com a trama e os personagens mais vívido sem a necessidade de um roteiro muito elaborado, uma vez que a antipatia e a intimidação já foram estabelecidas sem que o público tenha sequer percebido. Então, eis o primeiro motivo pelo qual tantos vilões têm cicatrizes e deficiências físicas.

(Esse efeito também pode ser alcançado com o auxílio de formas geométricas, mas isso é assunto pra outro dia)

2 – O passado

Um bom vilão sempre tem uma motivação concreta para suas ações. Ninguém mais aguenta ir ao cinema para ver o mesmo discurso vazio de dominação/destruição global desferido através de um monólogo previsível que já foi replicado um milhão de vezes, certo? Pois então, com isso em mente os roteiristas precisam encontrar uma forma de convencer o público de que as ações desses personagens, por mais que sórdidas, derivam de uma razão ao menos compreensível. Entra em cena, em muitos casos, o passado.

Candyman é um dos maiores exemplos de vilão nascido de um passado cruel, que deixou marcas em seu corpo.

São poucos os vilões que se mostram simplesmente loucos varridos em busca  do mal pelo mal. A maioria deles é composta por personalidades corrompidas, seja por alguma situação traumática ou evento disruptivo, que ainda possuem uma bússola moral, mesmo que esta esteja quebrada. Segundo as palavras de um deles…

I’m not a monsterI’m just ahead of the curve.”

Novamente, a aparência dos antagonistas se apresenta como um atalho para transmitir essa ideia. O que seria do Coringa de Heath Ledger sem suas cicatrizes, que claramente são a causa (ou efeito) de sua loucura? Pelo que Koba lutaria em Planeta dos Macacos: O Confronto se não tivesse sido torturado e marcado pelos seres humanos no passado? Por que Efialtes mudaria de lado em 300 se não pela rejeição oriunda de sua deformidade?

Esse aqui dispensa comentários.

Diversos exemplos cabem aqui. Nesse caso, se a motivação existe, o elemento que irá solidificá-la estará no corpo do personagem.

3 – A extensão do poder

Estando estabelecido quem é o vilão e quais os seus motivos, os responsáveis pela obra têm um último desafio, que paira sobre todo o resto, mas pesa sobre os personagens: o convencimento.

Seja o que for, precisamos acreditar no que estamos vendo. Um dos mais fundamentais aspectos que compõem a forma com que nos relacionamos com a arte é a imersão. A sensação de que o mundo desaparece ao nosso redor enquanto olhamos à tela ou viramos as páginas de um livro fazem com que a experiência se eleve e se torne indistinguível de nossa própria existência.

Automat, por Edward Hopper. A sensação de pertencimento à realidade das pinturas são marca registrada das telas de Hopper.

Sabendo disso, precisamos tornar crível o poder que um vilão exerce, e isso pode ser facilmente atingido através das demonstrações de vulnerabilidade. Meio contraintuitivo, né? Mas calma, vai fazer sentido.

Poder pode nascer tanto do cano de uma arma como do respeito e devoção incondicionais. É compreensível que um personagem detentor de um grande poder bélico ou até mesmo físico e místico exerça total influência sobre as pessoas. Afinal, se o risco ao questionar suas ações é o de morte, ninguém o fará. Mas como você explica quando um outro personagem consegue, sentado em sua cadeira de rodas, decidir o futuro da humanidade apenas com palavras?

Dr. Strangelove

A ideia de que uma pessoa supostamente debilitada e em muitos casos incapacitada pode controlar tudo ao seu redor, sem sequer precisar se mexer é muito mais intrigante e intimidadora do que o oposto. Afinal, tal posição de poder só pode ter sido atingida através de feitos incríveis e muito provavelmente não será desmanchada, independentemente da ação tomada pelo herói. O vilão se torna uma ameaça real, já que o único cenário capaz de cessar o perigo que representa a sua existência é um em que ele próprio não exista mais. Atacar sua integridade física não vai funcionar, ela já está prejudicada. Vencê-lo se torna um desafio que vai muito além de simplesmente dar alguns murros.

O odioso Governador ordenando ataque à prisão, em The Walking Dead

Esses são os três motivos pelos quais temos tantos vilões com essas características, a precisão que elas atribuem ao personagem torna muito improvável que deixem de existir os vilões marcados, de uma forma ou de outra. Se você conseguir pensar em outras conclusões, sinta-se convidadíssimo para comentar e citar alguns exemplos. Até a próxima!


Gabriel Martins

Adicto às artes, pois através delas a vida ganha sentido.

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